Com patrocínio da Energisa, projeto iniciado em janeiro na aldeia Nova Esperança do povo Yawanawá, no Acre, prevê o plantio de 5 mil árvores até maio, entre outras ações

No dia 13 de novembro de 2018, Moisés Pyiãko, liderança espiritual Ashaninka – povo indígena que vive na fronteira entre o Peru e o Acre – adentrou o Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e sentou–se no meio de uma plateia formada por homens e mulheres da cidade. Aconteceria ali a roda de conversa “A serpente e o DNA”, que fez parte do evento “Selvagem – Ciclo de Estudos Sobre a Vida”, mediado por Ailton Krenak. Em sua fala, Moisés proferiu uma frase que ecoou fundo naquela tarde de terça-feira:

– Eu nunca entrei numa universidade. Nunca entrei porque eu já nasci nela. Eu vivo dentro dela. Numa universidade onde eu aprendo e escuto todos os dias. Onde o silêncio é o meu professor.

Ouvir, observar, perceber. Os povos originários acreditam que a floresta fala com quem vive próximo a ela. Escuta quem tem a sabedoria de respeitá-la. Não à toa, o silêncio é o professor. Rodas de conversas como a recriada no Teatro Tom Jobim são uma prática muito tradicional das comunidades indígenas, mas engana-se quem acha que se assemelham a um bate-papo. Numa roda de conversa, não se fala o tempo todo. Numa roda de conversa, escuta-se. Indígenas de todas as idades participam das rodas. Crianças passam anos ouvindo. É colocado um tema e fala quem tem alguma experiência para compartilhar. Experiência vivida, sentida. É comum que um silêncio ocorra por 10, 15 minutos. Silêncio que diz tanto. Algumas rodas de conversa duram dias, pois o tema continua em aberto.

Grupo de pessoas conversa sobre a importância da preservação da natureza no Acre sentado em roda.
Roda de conversa “A serpente e o DNA”, Teatro Tom Jobim, 2018

E foi numa dessas rodas de conversa, iniciada em 2019, dentro da floresta, no coração do Acre, que uma preocupação latente começou a ser colocada, em diferentes momentos e em diferentes lugares: como salvar a Floresta Amazônica? Como preservar e devolver vida a terras tão desmatadas? O assunto já vinha sendo conversado por Ailton Krenak, Alice Fortes, Davi Kopenawa Yanomami, e João Fortes. A conversa foi sendo compartilhada por importantes lideranças dos povos Ashaninka e Puyanawa (como Benki e Moisés Piyãko Ashaninka e Puwe Puyanawa) e pessoas de fora da floresta (como o carioca João Fortes, que há 35 anos atua em projetos socioculturais e ambientais junto a comunidades da região, e Alice Fortes, sua filha, mestre em Antropologia e Artes visuais pela University of Bristish Columbia, no Canadá, com mais de 10 anos de trabalho com povos indígenas) e até de fora do país, a roda começou a discutir possíveis ideias de reflorestamento.

E como uma roda de conversa tem momento para começar, mas nunca para terminar, dois anos depois, em 2021, chegou ao grupo Isku Kua Yawanawá, jovem cacique da tribo Yawanawá, também do Acre. Isku Kua participa de rodas de conversa desde pequeno – muitas delas com os mesmos líderes presentes –, sempre escutando. Hoje uma liderança importante do povo Yawanawá, ele tinha algo a dizer. A presença de Isku Kua deu rumo aos anseios trazidos nos ciclos de debates e nasceu ali o projeto de reflorestamento da aldeia Nova Esperança.

Isku Kua Yawanawá, cacique da aldeia Nova Esperança, olha para a natureza.
Isku Kua Yawanawá, cacique da aldeia Nova Esperança

Promovido pela Aliança Reflorestar e Instituto Rever, com patrocínio da Energisa no valor de R$ 750 mil, o projeto promove a restauração da paisagem local por meio de plantios com técnicas agroflorestais, incluindo espécies frutíferas (como coco, ingá, graviola e limão, entre outras), e prevê o plantio de 5 mil árvores até maio deste ano, além da construção de um viveiro e de um banco de sementes, entre outras ações na aldeia.

– É uma aliança, porque foi ouvindo as ideias de cada um que fomos trabalhando – diz Puwe Puyanawa – É a primeira vez que a terra do nosso povo Puyanawa é trazida para reflorestar a terra de um outro povo indígena.

Puwe refere-se à ideia central do projeto: promover uma união e troca de saberes em prol de um bem comum. Puwe e o líder Benki Piyãko Ashaninka, do Centro YorenkaTasorentsi, também do Acre e parceiro do projeto, enviaram comitivas para trocas de experiências e para ajudar no plantio. Dos Ashaninka, o conhecimento prévio de plantio e agrofloresta; dos Puyanawa, as mudas trazidas para os Yawanawá.

– Entendemos que um projeto de reflorestamento só faria sentido se os povos da floresta fossem protagonistas, numa verdadeira aliança – explica João Fortes, diretor da Aliança Reflorestar da Amazônia. – Desta forma, o projeto vem formando indígenas dos povos Yawanawá e Puyanawa para a prática de agrofloresta, com a habilidade de poderem compartilhar esses conhecimentos com outras comunidades da floresta, indígenas e não indígenas.

A primeira etapa do trabalho foi iniciada em janeiro deste ano e, em poucos dias, foram plantadas 1.640 mudas, construído um viveiro com capacidade para mais 7.000 delas, além de uma sementeira. Baseado nos saberes tradicionais dos povos da floresta e em práticas agroflorestais – tais como o plantio combinado de árvores frutíferas, árvores de madeira de lei e árvores pioneiras (que crescem rápido e generosamente fazem sombra para as outras poderem vingar) –, o projeto fortalece a biodiversidade local e beneficia a segurança alimentar na comunidade, além de incentivar a sua perpetuação nas novas gerações.

Detalhes das mudas e viveiro.
Detalhes das mudas e viveiro

Os indígenas sabem que é germinando as ideias e as práticas nas crianças que se salva um planeta. Os pequenos, sempre incluídos no dia a dia das aldeias, pediram para ajudar. João Fortes conta que, ao ouvir esse pedido, Benki Ashaninka disse a elas para trazerem, então, as sementes das frutas de que mais gostavam. Como uma criança vai deixar faltar cupuaçu, se ela ama aquele sabor? Como um pequeno vai jogar fora as sementes de uma manga, se são elas as responsáveis por gerar novos frutos iguais àquele?

– O projeto vai além do reflorestamento. A gente trabalha o plantio das mudas e também realiza uma mobilização importante na comunidade, porque muitos locais demandam um cuidado por cerca de três anos. Então, é fundamental que o trabalho continue – ressalta Alice Fortes, co-fundadora e coordenadora executiva da Aliança Reflorestar.

Alice Fortes, coordenadora executiva Aliança Reflorestar da Amazônia; Leonilson Silva, agrofloresteiro do Centro Yorenka Tasorentsi; João Fortes, diretor de articulação da Aliança Reflorestar; Nainawa Yawanawá, mestre das plantas e medicinas da aldeia Nova Esperança; e Isku Kua Yawanawá, cacique da aldeia Nova Esperança, conversam sorrindo.
Alice Fortes, coordenadora executiva Aliança Reflorestar da Amazônia; Leonilson Silva, agrofloresteiro do Centro Yorenka Tasorentsi; João Fortes, diretor de articulação da Aliança Reflorestar; Nainawa Yawanawá, mestre das plantas e medicinas da aldeia Nova Esperança; e Isku Kua Yawanawá, cacique da aldeia Nova Esperança

A segunda etapa da ação será realizada agora em abril, com a continuação do plantio e a criação do banco de sementes. A comunidade Yawanawá também receberá treinamento em arborismo para a coleta de sementes no alto das árvores.

– O projeto é muito especial para nós, pois acontece através da junção de forças locais. Estamos cuidando daquela terra em conjunto com os que a habitam e já estão lá – explica José Adriano, Diretor presidente da Energisa Acre. – Além do cunho de preservação, ele tem um caráter educacional, de transmitir os conhecimentos para que o projeto seja perene. Ao formarmos um colchão alimentar para as comunidades que ali vivem, é um ciclo que se fecha.

Durante uma filmagem do projeto, Puwe Puyanawa revolve a terra com as mãos ao plantar uma muda e reflete: “Não sei por que as pessoas usam luva para mexer na terra. É tão melhor assim, sem nada. Igual ao tatu, que vive assim e tem uma vida tão boa… até melhor que a nossa.” Salvar a floresta é também escutar o que seus mais silenciosos professores têm a transmitir.